
Com diferentes formatos de atendimento, estabelecimentos apostam na variedade de ingredientes e em receitas conhecidas para ampliar o interesse pela alimentação vegetal.
A culinária vegana tem conquistado espaço em diferentes propostas de restaurantes, com refeições que vão muito além da substituição de ingredientes de origem animal. Grãos, legumes, verduras e especiarias ganham novas combinações e dão origem a pratos que podem fazer parte da rotina de consumidores com diferentes hábitos alimentares.
No Mafalda Bar e Bistrô e na Veganitude, a criatividade na cozinha é uma das estratégias para apresentar esse tipo de alimentação a um público mais amplo. Os estabelecimentos seguem modelos distintos: enquanto um trabalha com buffet vegetariano e vegano no almoço, com preços populares, o outro atende exclusivamente por delivery. Em comum, os negócios apostam no sabor e na diversidade das preparações para atrair clientes, inclusive aqueles que não seguem uma dieta vegana.
Variedade de ingredientes amplia as possibilidades do cardápio
A proposta vegetariana e vegana do almoço do Mafalda Bar e Bistrô começou em 2019. A decisão foi tomada por Iêda Godoy, responsável pelo estabelecimento, depois de participar de um retiro budista e passar a repensar sua relação com a alimentação sem carne.
Desde então, o restaurante mantém um buffet com diferentes preparações, servido de segunda-feira a sábado. A escolha dos ingredientes considera a qualidade dos produtos, a disponibilidade e os custos envolvidos. Esses fatores também estão relacionados à proposta de oferecer refeições com preços acessíveis para estudantes, artistas e frequentadores da região.
A cozinha prioriza alimentos frescos e preparações feitas no próprio estabelecimento. Segundo Iêda, o restaurante não utiliza ingredientes orgânicos porque o custo teria impacto no valor cobrado dos clientes. A alternativa é trabalhar com os produtos disponíveis e explorar diferentes formas de preparo para manter a variedade do buffet.
A experiência do Mafalda também mostra que a alimentação vegetal pode atrair pessoas que não deixaram de consumir carne. Para Iêda, o sabor é o principal motivo que leva os clientes ao restaurante. “As pessoas procuram a comida em primeiro lugar pelo sabor”, afirma. Ela relata que recebe consumidores que não seguem uma alimentação vegetariana, mas continuam frequentando o estabelecimento porque encontram refeições saborosas e não sentem falta da carne.
Entre os ingredientes utilizados estão grãos, feijões, especiarias e produtos à base de milho. A cozinha também procura explorar alimentos menos presentes no cotidiano de alguns consumidores, como a quirera, por meio de combinações e temperos que valorizam suas características.
Na Veganitude, a elaboração do cardápio também parte da escolha criteriosa dos ingredientes. A proprietária e nutricionista Daniele Schneider considera aspectos como sabor, qualidade, textura, versatilidade e custo. A intenção é atender tanto consumidores que já adotam uma alimentação vegana quanto aqueles que desejam experimentar outras possibilidades ou diminuir o consumo de produtos de origem animal.
O estrogonofe de grão-de-bico exemplifica essa proposta. A receita utiliza um ingrediente vegetal em um prato conhecido por diferentes públicos, mostrando como preparações tradicionais podem ganhar novas versões. Daniele ressalta, porém, que a cozinha vegana não precisa reproduzir necessariamente receitas com carne. “Nem toda receita precisa imitar carne, ela precisa ser gostosa por si só.”
A familiaridade com alguns pratos também ajuda a despertar o interesse dos consumidores. Hambúrgueres, yakisobas e estrogonofes são exemplos de preparações que aproximam o público da culinária vegetal. Nas redes sociais, a Veganitude procura apresentar essas possibilidades e mostrar que suas refeições não são destinadas somente a quem segue uma alimentação vegana.
Modelo de atendimento influencia a rotina da cozinha
Além da composição do cardápio, o formato de atendimento determina diferentes cuidados na operação dos restaurantes. No Mafalda, o sistema de buffet permite modificar as preparações durante a semana, de acordo com os ingredientes disponíveis e as possibilidades de aproveitamento. Alguns pratos permanecem no cardápio, enquanto outros são preparados conforme as ideias da equipe.
O uso dos alimentos também faz parte da organização da cozinha. Ingredientes que sobraram de outras preparações podem ser aproveitados em novas receitas, desde que continuem adequados para o consumo. O arroz do dia anterior, por exemplo, pode ser transformado em bolinhos, assim como vegetais e folhas podem ganhar espaço em outros pratos.
“Tudo lá que é de ontem que sobrou lá vira bolinho”, explica Iêda. O restaurante também utiliza partes dos alimentos que costumam ser descartadas, como as cascas de batata, aproveitadas no preparo de chips.
Já na Veganitude, a operação é organizada em torno das entregas. Como o restaurante trabalha exclusivamente com delivery, o desenvolvimento das receitas precisa considerar o que acontece depois que o pedido deixa a cozinha.
Segundo Daniele, é importante que os alimentos mantenham suas características durante o transporte. Por isso, aspectos como embalagem, conservação e textura são considerados na escolha e na preparação dos pratos. O objetivo é garantir que a refeição chegue ao consumidor com a qualidade esperada.
Controle de custos também orienta as escolhas
A busca pelo equilíbrio entre qualidade e preço faz parte das decisões dos dois estabelecimentos. No Mafalda, a proposta de manter refeições acessíveis influencia diretamente a seleção dos ingredientes. A opção por não trabalhar com produtos orgânicos está relacionada ao impacto que eles teriam no preço final. Nesse cenário, variar as receitas e aproveitar melhor os alimentos são alternativas para ampliar as opções do buffet.
Na Veganitude, a escolha entre ingredientes básicos e produtos industrializados depende de fatores como rendimento, tempo de preparo e necessidade de mão de obra. Daniele explica que alguns itens prontos, como queijos veganos de marcas conhecidas, facilitam a rotina da cozinha e permitem desenvolver determinadas receitas com mais praticidade.
Isso não significa deixar de lado os ingredientes básicos. Grão-de-bico, legumes e verduras continuam presentes na elaboração dos pratos e ajudam a construir a identidade do cardápio. A disponibilidade dos produtos também interfere no planejamento. Para abastecer a operação, o estabelecimento conta com um fornecedor da Ceasa.
As experiências do Mafalda Bar e Bistrô e da Veganitude mostram diferentes maneiras de trabalhar com a alimentação vegetal. Seja em um buffet com preços populares ou em refeições preparadas para entrega, a organização da operação, a escolha dos ingredientes e a criatividade no desenvolvimento das receitas fazem parte do trabalho dos empreendedores.
Para o consumidor, a diversidade de preparações amplia as possibilidades de experimentar novos sabores e encontrar alternativas para as refeições do dia a dia. Para os restaurantes, explorar a cozinha vegetal representa uma oportunidade de trabalhar diferentes ingredientes e atender a públicos com hábitos alimentares variados.




