Mudança no comportamento dos consumidores leva estabelecimentos a ampliar a oferta de opções mais leves e diversificar cardápios
As bebidas sem álcool e de baixa caloria vêm conquistando espaço nos bares e restaurantes brasileiros, acompanhando uma mudança nos hábitos de consumo. Impulsionada pela busca por equilíbrio, bem-estar e alimentação mais consciente, a tendência tem levado estabelecimentos a ampliar o portfólio de cervejas, drinques e outras bebidas voltadas a diferentes perfis de clientes.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad) mostram que o mercado brasileiro de bebidas dietéticas e de baixa caloria registrou crescimento de 20,6% em 2023. Segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), esse movimento também vem sendo percebido no setor de alimentação fora do lar, onde empresários adaptam os cardápios para atender às novas preferências dos consumidores.
O avanço é atribuído ao maior acesso à informação sobre alimentação, aos investimentos da indústria na melhoria da qualidade e do sabor das versões com menos calorias e à influência da Geração Z, que tem adotado hábitos de consumo mais moderados.
Uma pesquisa da MindMiners, realizada em 2025, reforça essa mudança ao apontar que 52% dos brasileiros da Geração Z não consomem bebidas alcoólicas. Entre esse público, 6% optam por cervejas sem álcool e outros 6% preferem drinques sem álcool.
Formada por pessoas nascidas entre meados da década de 1990 e o início dos anos 2010, a Geração Z não atende as expectativas de campanhas publicitárias como antes e tem se inspirado no crescimento do mercado wellness, que tem como características principais o bem-estar integral e a longevidade.
Para Daniel Mota, diretor Key Account do Grupo Heineken, trata-se de uma transformação mais ampla no comportamento do consumidor. "O crescimento das versões alternativas, tanto as de caloria reduzida quanto às zero álcool, com menor teor alcoólico ou sem glúten, parece ir além de um movimento pontual e está mais ligado a uma evolução progressiva dos hábitos de consumo", afirma.
Segundo ele, o interesse por equilíbrio amplia as ocasiões de consumo e permite que as escolhas variem conforme o contexto. "Em muitos casos, a decisão está mais ligada ao momento de consumo do que a um perfil específico de consumidor."
Cardápios acompanham a nova demanda
Nos bares e restaurantes, a mudança já influencia diretamente a composição dos cardápios. Proprietária do Mezmiz – Cozinha Libanesa, em Curitiba (PR), Vaneska Berçani afirma que o crescimento da procura ocorreu de forma gradual, mas consistente.
"Primeiro surgiu um movimento de redução do consumo de açúcar, que levou muitas pessoas a abandonarem os refrigerantes. Depois o mercado respondeu com alternativas mais interessantes. Hoje não se trata mais de um nicho. É uma transformação estrutural no comportamento do consumidor", diz.
Segundo a empresária, a adaptação foi além da ampliação do número de bebidas disponíveis. O restaurante passou a fazer uma curadoria mais criteriosa das opções, reduzindo a variedade de refrigerantes e investindo em bebidas autorais sem álcool e cervejas com características específicas.
Entre os destaques estão os mocktails e bebidas preparadas com frutas, flores e xaropes naturais, alinhadas à proposta gastronômica da casa. "A curadoria do cardápio de bebidas hoje é tão estratégica quanto a do cardápio de comida", afirma Vaneska.
Em São Paulo, a mesma tendência é observada no Malibu Park. O sócio-proprietário André Makoto relata aumento da procura por bebidas mais leves. "O que temos percebido é que as cervejas de baixa caloria têm crescido mais em comparação com as tradicionais", relata.
Segundo ele, a redução do consumo de bebidas alcoólicas por parte de alguns consumidores impulsionou a inclusão de novas opções no cardápio. "Talvez seja a nova geração e a busca das pessoas por uma vida mais saudável. Antes tínhamos apenas os coquetéis tradicionais, agora implementamos os mocktails, que são os coquetéis sem álcool."
Makoto destaca que o perfil do restaurante, voltado para alimentação equilibrada, favorece essa demanda, especialmente entre mulheres de 25 a 45 anos.
Consumidores buscam mais informações sobre os produtos
Além da diversificação das opções, cresce o interesse dos consumidores pelas informações nutricionais das bebidas. Para Daniel Mota, a transparência tornou-se parte das expectativas do público. "Há sinais de que o consumidor está mais atento às informações sobre os produtos. Em muitos casos, essa atenção está menos ligada à restrição e mais à busca por escolhas cada vez mais conscientes e ao bem-estar", revela.
Segundo Vaneska, esse comportamento também é percebido no atendimento do restaurante. "Muitos clientes procuram informações sobre açúcar, sódio, corantes, adoçantes e origem dos ingredientes antes de fazer o pedido. O olhar vai direto para o rótulo. No restaurante, isso também se traduz em perguntas à equipe. Esse comportamento nos obriga a conhecer profundamente cada produto que servimos."
No Malibu Park, a tendência já influencia os próximos passos do negócio. "Essa é uma tendência mundial. Fora do Brasil isso já acontece há muitos anos e nós também vamos disponibilizar essas informações para os clientes", afirma André Makoto sobre a intenção de incluir informações calóricas nos cardápios.
Geração Z impulsiona novas oportunidades
A mudança de comportamento da Geração Z aparece como um dos principais fatores por trás da expansão desse mercado. Segundo Daniel Mota, trata-se de um público disposto a experimentar novos produtos e alternar diferentes categorias de bebidas. O executivo também avalia que as redes sociais contribuem para ampliar a aceitação de escolhas sem álcool e normalizar diferentes formas de consumo.
Nos restaurantes, a percepção é semelhante. "A Geração Z está redefinindo o consumo de álcool e mostrando que é possível se divertir sem bebidas alcoólicas. Para eles, essa não é uma tendência, mas um valor", afirma Vaneska.
Enquanto consumidores mais jovens priorizam experiências e bem-estar, pessoas de outras faixas etárias costumam relacionar a escolha por bebidas leves a objetivos ligados à saúde, como controle do peso, da glicemia e da pressão arterial.
A indústria também acompanha essa transformação. Dados divulgados pela Ambev mostram que o portfólio de "escolhas equilibradas" cresceu mais de 70% no primeiro trimestre de 2026. No mesmo período, Michelob Ultra registrou crescimento de 180% e Stella Pure Gold avançou 160%.
Para bares e restaurantes, a ampliação da oferta de bebidas sem álcool, de baixa caloria e com propostas diferenciadas representa uma oportunidade de atender novos perfis de consumidores, diversificar o cardápio e acompanhar a evolução dos hábitos de consumo no país.

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